setembro 15, 2026

Os primeiros seis meses de 2026 confirmam a trajetória positiva das receitas da música gravada em Portugal. As receitas provenientes de vendas, sincronizações e direitos conexos atingiram 45,4 milhões de euros, mais 14% do que no mesmo período de 2025.
O crescimento verificou-se nas duas grandes componentes analisadas neste relatório. As receitas de vendas e sincronizações aumentaram 18%, para 27,35 milhões de euros, enquanto os direitos conexos cresceram 8%, atingindo 18,05 milhões.
O digital continua a ocupar o centro económico das receitas de vendas e sincronizações, representando 77% deste total. O streaming concentra praticamente a totalidade das vendas digitais, mas a evolução das suas duas principais componentes foi distinta. As receitas provenientes de subscrições pagas aumentaram 28%, para 15,11 milhões de euros, enquanto o streaming suportado por publicidade registou uma ligeira descida de 1%, para 5,80 milhões. As subscrições geraram, assim, 72% das receitas de streaming no primeiro semestre de 2026.
Este diferencial pode constituir um sinal de progressiva maturação do streaming em Portugal. O crescimento do valor gerado por estes serviços está cada vez mais associado à capacidade de converter o consumo numa relação paga e continuada. A consolidação das subscrições constitui um dado positivo para a remuneração de artistas e produtores, mas sugere também que o crescimento futuro das receitas dificilmente poderá assentar apenas na expansão orgânica do consumo interno.
A evolução das vendas físicas constitui outro dos dados relevantes do semestre. As receitas cresceram 20% face ao período homólogo, para 5,79 milhões de euros. O vinil manteve a maior fatia das receitas de álbuns e aumentou 25%, enquanto o CD inverteu a trajetória de queda dos últimos anos, crescendo 7%. As receitas de sincronização registaram igualmente uma evolução expressiva, aumentando 28%, para 403 mil euros, embora continuem a representar uma parcela reduzida das receitas globais.
Importa esclarecer que este relatório apresenta as receitas geradas em Portugal, independentemente da origem do reportório consumido. A evolução positiva das vendas e das restantes fontes de receita cria condições mais favoráveis para o investimento na produção musical, mas não se traduz automaticamente num reforço da presença e do valor económico do reportório produzido em Portugal.
A progressiva consolidação do mercado interno altera as condições do crescimento futuro. A criação de mais valor em torno da música produzida em Portugal exigirá o reforço da monetização do consumo nacional, a diversificação das fontes de receita e uma maior capacidade de alcançar públicos e territórios externos.
A internacionalização assume, neste contexto, uma importância decisiva. Uma estratégia continuada de promoção e circulação internacional pode ampliar as oportunidades para artistas e produtores portugueses, facilitar o acesso a redes profissionais e novos públicos e reduzir a dependência da dimensão do mercado interno. A projeção internacional do reportório produzido em Portugal constitui, por isso, uma condição essencial para um crescimento mais sustentável.
A transformação digital traz também novos desafios. A utilização de ferramentas de inteligência artificial na criação e na produção musical exige regras claras quanto ao licenciamento, à transparência e à intervenção humana no processo criativo. A credibilidade dos TOPS e dos galardões depende igualmente da prevenção da manipulação de consumos e da capacidade de distinguir as utilizações legítimas da tecnologia dos conteúdos gerados integralmente por inteligência artificial.
Os resultados deste semestre são positivos, mas revelam também uma transformação nas condições de criação de valor. A sustentabilidade desta trajetória dependerá da consolidação do consumo legal pago, da diversificação das receitas, da proteção da integridade das tabelas e certificações e de uma estratégia capaz de projetar a música produzida em Portugal para além das fronteiras nacionais.
O relatório integral encontra-se disponível para consulta aqui.
Miguel Carretas
Diretor Delegado AUDIOGEST